Fabio Golombek, da FJ Productions, avalia diferenças de produção e de mercado entre Brasil e EUA
por: Mariana Toledo
telaviva.com.br
Fabio Golombek fundou a FJ Productions em 2002. A produtora assina programas como “Menos é Demais” (Discovery), “The Hollywood News Report” (HBO, Starz), “5 Looks” (Discovery), “Sonywood News” (Sony), “TNT Buzz” (TNT), “Planeta Brasil” (Globo TV) e “Aberto para Compras”, do History, que teve sua terceira temporada recém-anunciada. Membro do Producers Guild of America (PGA), IDA, NALIP, Cinema do Brasil e BRAVI, Golombek tem mais de 25 anos de experiência na indústria do entretenimento, tendo trabalhado em filmes como “Silvio” (2024), com Rodrigo Faro; “Predestinado” (2022), com Danton Mello e Juliana Paes; “Saving Flora”, com Jenna Ortega e David Arquette; “Abe”, com Noah Schnapp e Seu Jorge; e “Experimenter”, com Peter Sarsgaard e Winona Ryder, entre outros.
A produtora tem sedes no Brasil e em Los Angeles, nos EUA, e produz conteúdo audiovisual em ambos os territórios. A fundação aconteceu em LA, onde o executivo chegou em 1990. De sua chegada até a abertura da empresa, ele trabalhou em cinema, como assistente de direção, e foi sócio de uma produtora que tinha programas esportivos como foco. “No início, da FJ produzia muitos comerciais, até fecharmos uma série de reality com a SCGlobal, de Nova York. Aí começou nosso crescimento. Fechamos um acordo com o Hollywood Reporter e começamos a produzir programas semanais sobre entretenimento com o apoio deles. O ‘Hollywood News Report’ e o ‘Red Carpet’ iam ao ar na STAR e depois na HBO e eram distribuídos para mais de 30 países. Fizemos muitos programas de entretenimento e, ainda hoje, continuamos produzindo o ‘TNT Buzz’, que vai ao ar no Brasil e em vários outros países há mais de 12 anos”, contou Golombek em entrevista exclusiva para TELA VIVA.
Ainda relembrando a história da produtora, ele citou o acordo com a TV Globo em 2003 para a produção de um programa semanal, o “Planeta Brasil”, que foi veiculado em todo o mundo por meio do canal internacional. “O programa teve uma repercussão fenomenal – e numa época pré Facebook, Instagram ou WhatsApp. Visitamos mais de 50 países e inspiramos o surgimento de novos programas no Japão, Angola e Portugal”, disse. O “Planeta Brasil” ficou no ar até 2018.
Em 2010, surgiu a primeira empreitada para o cinema, com a produção do filme “Bed and Breakfast” (“Amor Por Acaso” – PlayArte), com direção de Márcio Garcia e com Juliana Paes, Dean Cain, Rodrigo Lombardi e Marcos Pasquim no elenco. O longa foi bem no Brasil, nos EUA e em outros territórios e, segundo o produtor, seu sucesso foi um incentivo para que a produção de filmes continuasse. “A partir daí, já comecei a pensar em abrir uma produtora no Brasil. Isso acabou acontecendo em 2016, quando começamos a desenvolver dois filmes que foram produzidos no país: ‘Arigó’ (hoje ‘Predestinado: Arigó e o Espírito do Dr. Fritz’) e ‘Fittipaldi’. Aproveitando as leis de incentivo, desenvolvemos projetos para os canais no Brasil e tivemos o interesse de vários”, afirmou, citando projetos como “5 Looks” e “Menos é Demais”, ambos da Discovery, e o segundo com sua sexta temporada sendo rodada no momento. Mais recentemente, a FJ produziu pela primeira vez uma série de ficção para o Prime Video, “Desjuntados”, escrita pelas roteiristas e comediantes Dani Valente e Mina Oliveira e protagonizada por Letícia Lima e Gabriel Godoy. Nos EUA, a empresa seguiu desenvolvendo e produzindo filmes, como “Experimenter” (com Winona Ryder e Peter Sarsgaard), “Saving Flora” (com Jenna Ortega e David Arquette) e “In Vino” (com Ed Asner).
Diferenças entre os mercados
Do ponto de vista de quem conhece o estilo de produção e o mercado dos dois países, Golombek analisa que as diferenças são muitas – a começar pela história. “A indústria do audiovisual já era forte aqui nos EUA nos anos 20. Os pioneiros do cinema em Los Angeles vieram do Vaudeville, do teatro, a maioria de Nova York ou Chicago, depois complementados por grandes nomes do teatro e cinema da Europa. A profissionalização dos técnicos e artistas, com sindicatos e organizações, até a criação de estrelas (o ‘star system’), já existia antes mesmo do cinema falado, em 1928. Tudo isso sustentado por um público de classe média ávido por entretenimento”, explica. “No Brasil, por outro lado, apesar de o cinema ter tido um começo forte entre os anos 1905 e 1920, ele foi perdendo a força ante a competição estrangeira. Pouquíssimos filmes nacionais sobreviveram nesta época. Mas, hoje, a maior diferença são os incentivos fiscais“, pontua.
O produtor ressalta que, no Brasil, há incentivos federais, estaduais e municipais, além de editais de empresas que incentivam a indústria cultural. Outro ponto de destaque são os apoios para desenvolvimento de projetos. “Nos EUA, isso praticamente não existe. Os filmes têm de ser pagos na distribuição, seja cinema, TV ou streaming. Para financiamento, os produtores contam apenas com Tax Rebates, que são descontos que alguns estados dão para recursos utilizados normalmente só naquele estado. Para que o produtor não precise aguardar e possa contar com estes recursos para a realização do filme, ele precisa de um adiantamento com empresas financeiras, mas a um custo muitas vezes excessivo”, explica. “Há outras formas de minimizar os custos de produção, como product placement – quando empresas disponibilizam seus produtos para serem usados nos filmes -, ou product integration – quando empresas pagam para terem seus produtos ou serviços nos filmes. Esta segunda opção é mais rara para filmes independentes, quando muitas vezes a distribuição não está garantida antes da pós”, acrescenta.
Para ele, a segunda maior diferença obviamente está no espaço que os filmes americanos ocupam no mercado internacional. “Os produtores americanos, independentes ou estúdios, contam com 50% ou mais das vendas internacionais para cobrir o custo de produção. No Brasil, o valor gerado por vendas internacionais é praticamente irrelevante na maioria das vezes, caso raras exceções. Isso porque o mercado mundial ainda está acostumado a comprar filmes americanos, não apenas pelo idioma, mas pela estética e qualidade técnica, embora hoje quase não existam diferenças relevantes em filmes de outros países”, avalia.
Cenário instável
Mas essas diferenças não significam necessariamente que um mercado de entretenimento seja mais estável do que o outro – segundo o executivo, essa estabilidade não existe em nenhum lugar do mundo. “Mudanças ocorrem o tempo todo, mas na nossa área as mudanças estão vindo de uma forma muito rápida. Essa aceleração se deu a partir do momento em que o streaming tomou fôlego. A partir disso, todo o modelo de distribuição começa a ser alterado. Mas a revolução continua agora com a introdução da IA em quase todos os aspectos de produção, não apenas nos mais visíveis, tipo pós-produção. A competição que o cinema e TV enfrentam fica mais acirrada com a chegada do iPhone – possibilitando a expansão da mídia social, videogames, short content (TikTok, Snapchat, Instagram, etc.) – todos disputando o tempo limitado que temos para entretenimento. Mas sou otimista. Acredito que o conteúdo é rei, isto é, o que atrai as pessoas são histórias e conteúdos de qualidade”.
Mudanças e estratégias
Golombek acredita que seja muito cedo para saber quais serão os reais efeitos do novo mandato de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos e a série de imposições por ele anunciadas na indústria audiovisual. “Temos hoje aqui (nos EUA) um presidente onde a lógica e bom senso não fazem parte do processo decisório. As tarifas, por exemplo, sobem, descem, entram e saem às vezes no mesmo dia. Portanto, quando ele diz que vai taxar 100% filmes feitos fora dos EUA, ninguém sabe com certeza o que isso significa. Como um filme americano com Tom Cruise, tipo ‘Missão Impossível’, filmado em vários países vai ser taxado? Ao contrário do resto do mundo, onde existem regras para que o filme seja definido como sendo nacional – no Brasil, por exemplo, com um CPB -, aqui não há definição de filme ‘americano. Você não precisa de um ‘certificado’ para conseguir uma avaliação da MPA (Motion Picture Association). Não precisa provar que o filme é ou não produzido aqui”, pontua.
No entanto, ele faz uma previsão: “Com ou sem Trump, a indústria está mudando e se regionalizando. Países em todo o mundo estão produzindo cada vez mais seus próprios conteúdos. Isso com certeza nos afeta, já que como falei, parte do modelo financeiro conta com a distribuição internacional. Se os países começarem a retalhar devido a estas novas tarifas, estas vendas ficarão mais difíceis. Os filmes terão que ter orçamentos menores e contarem com uma parcela maior do mercado doméstico para cobrir os custos de produção”.
Pensando exclusivamente nas questões mais urgentes do mercado brasileiro, Golombek acredita que esse cenário político possa, por exemplo, atrasar a já demorada regulamentação do streaming no país – considerando especialmente que a maioria das grandes plataformas atuantes aqui são de fora. “A regulamentação do streaming já deveria ter ocorrido. Sua ausência só beneficia a produção estrangeira. É fundamental para os produtores brasileiros que esta regulamentação saia o mais breve possível. A exemplo do que faz a comunidade europeia, que já implementou a sua regulamentação, é importante fortalecer a economia criativa para que a produção nacional possa competir com a estrangeira. Além disso, garantimos nossa diversidade cultural e espaço para que as produções brasileiras atinjam o mercado internacional”, observa.
Mas apesar dessa nova administração, o produtor ainda enxerga os Estados Unidos como esse grande “ímã” – e não só na área de entretenimento – para talentos de todo o mundo. E, por isso, entende que é totalmente possível uma empresa brasileira se destacar no país. “Há sempre espaço para novas empresas e novas ideias. Aliás, eu acredito que a força deste país se dá na existência de uma diversidade de culturas, raças, religiões e ao fato de existir um apoio a novas ideias. Portanto, se uma empresa brasileira oferece novos elementos, o mercado aqui se abre. Recentemente tivemos vários exemplos, com filmes brasileiros tendo destaque internacional abrindo espaço para que produtores, diretores e atores brasileiros atuarem no mercado internacional”. Ele acrescenta: “Minha dica maior seria seguir o que fazemos regularmente quando produzimos algo em outras regiões: achar parceiros estratégicos. Primeiro, analisar bem as características do mercado, e, em seguida, procurar se associar a empresas locais com as quais nos identificamos. Pesquisar e achar pessoas que ‘comprem’ a sua ideia, que conheçam o mercado e, juntos, possam desenvolver um projeto adaptável para o mercado que se quer conquistar”.
Por fim, Golombek reflete que existe uma “objetividade e pragmatismo” nas negociações nos EUA: “No Brasil, as coisas às vezes andam na lateral até poder andar para frente. Às vezes ouço das pessoas da minha própria empresa que este modo mais direto de trabalhar não funciona bem no Brasil. Mas já provei que funciona. Obviamente precisamos ter uma certa flexibilidade, mas no final, quando você sabe onde pode e quer chegar, o caminho direto é sempre menos estressante e economiza tempo“.
Próximos projetos
A FJ Productions acabou de finalizar as gravações da segunda temporada do “Aberto Para Compras”, do History, e está começando as gravações da sexta temporada do “Menos é Demais”, do Discovery. Ainda este ano, lançará dois longas, ambos dirigidos por Guilherme de Almeida Prado: “A Palavra” (PlayArte) e “Um Olhar, Um Suspiro, Um Sorriso” (Burdigala Dist). Além disso, há vários filmes em desenvolvimento, como “DOT”, sobre a vida da freira Dorothy Stang, em coprodução com a Ocean Filmes, e “A Minha Cara” (Imagem), uma comédia adaptada pela Dani Valente a ser dirigida pelo Marcelo Antunez.
Nos EUA, a produtora está terminando um documentário sobre a cantora Macy Gray e finalizando o piloto de uma série sobre VFX – “Iconic”, esta última sendo finalizada na Visom, no Rio de Janeiro. Em longas, são vários projetos em andamento, com destaque para “Fighting Chance” (Myriad), sobre um lutador de MMA à procura de seu pai; “Dead Storage”, coprodução com Orka (Polônia), com direção de Jay Stein, um thriller sobrenatural sobre um burocrata que tenta desvendar segredos do passado; e “Stealing from Pablo” (Synkronized), com direção de Carlos Gutierrez, sobre um grupo de jovens skatistas que acabam se metendo com um assassino que trabalha com Pablo Escobar.